Aqui estou eu.Necessitei coragem para chegar.Não é fácil bater a porta de alguem que tanto preza o direito de ser so.Com o intuito de ser menos inoportuna, utilizei-me dos recursos desta correspondencia.Ponderei que minha presença poderia causar-lhe desconforto.Sou-lhe estranha.E, po isso, a carta.Vida inteira espremida nesse envelope que agora foi aberto por voce.Uma carta é bem menos inoportuna que uma visita presencial.É uma forma de chegar mais sem pesar o outro com a presenç.Ainda necessito de dizer quem sou.Careço de encontrar alguem a quem eu possa retirar a máscara, mostrar o coração.A dificuldade que enfrento no momento parece desvendar outros obscuros que trago em mim.Estou inadequada.Experimento e constato essa inadequação nas pequenas coisas. Estou precisando confessar meus medos.Só por isso lhe escrevo.A escrita é uma aventura perigosa.Nela o coração humano se registra e se revela.O envelope resguarda o segredo, acoberta o infortúnio que gerou as palavras, segreda os motivos qu o esboço da escrita não alcança, veda o espaço para que o sentimento não fuja.nem se perca pelo caminho.A palavra segura o significado do vivido, desafia o tempo, engana a cronologia.A vida vivida encontra abrigo na casa da palavra.A tenda do significado se presta a auscultar o coração confesso.E com isso o significado se avoluma.O que a palavra sabe de si mesmo é misteriosamente emprestado a dor que até então doía sem ter nome.A dor pagã ganha batismo.Do obscuro ventre, alça o socorro do significao, vem a luz e acomoda-se nos estreitos territórios da palavra.
É assim que ouso bater a sua porta.Estreitado nos limites da minha fala.Tentei fazer caber neste envelope a circunstancia existencial que tanto tem pesado sobre mim.
Estou nas palavras, mas estou, sobretudo nas entrelinhas.O que já sei dizer sobre mim, é quase nada perto do ser que em mim se oculta.Talvez por isso eu esteja aqui.Tenho necessidade de conhecer melhor quem sou.Anseio por conhecer o estatuto que me rege. A lei interior que me distingue e ao mesmo tempo me assemelha a uma parte da humanidade.
Querido amigo, sei que as palavras podem não significar nada neste momento, mais abro agora meu coração para confessar oque vai na minha alma.Posso estar sendo um tanto inoportuna e infantil, mais preciso, mais preciso que compreenda aquilo que tanto preciso transmitir.Gostaria que através das palavras existisse uma ponte que me levasse até voce, e nesta tarde fria de inverno, eu pudesse ver a beleza que esconde atraz